Jotabasso Entrevista: “Um dos maiores pecados cometidos pelas empresas é a ineficiência na execução das ações”

Josmar Cesta Bignotto estuda e orienta processos sucessórios de empresas há mais de 20 anos

Com larga experiência profissional, Josmar Cesta Bignotto é bacharel em Física e há mais de 20 anos estuda e acompanha processos sucessórios de empresas. Com especializações em Administração de Empresas, Recursos Humanos, Vendas & Marketing, mergulhou no mercado de trabalho desempenhando, desde funções do “chão de fábrica”, até cargos como diretor de RH (Recursos Humanos), diretor comercial e CEO (presidente executivo) na Goodyear Tire & Rubber Co.

Com fala e ideias muito claras, Bignotto é mentor de empresas através de sua atuação em conselhos consultivos e de administração, como já o fez no Conselho de Administração da Sementes Jotabasso, além de ser membro do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) em diversas comissões.

É para falar sobre empresas familiares e a longevidade desses negócios que o especialista aceitou prontamente nosso convite para uma conversa que será dividida em duas etapas. Nessa primeira, o assunto é prosperidade organizacional.

JB - No nosso primeiro contato o senhor nos disse que o sucesso de toda organização empresarial está relacionado a três pilares, três aspectos que precisam coexistir. Quais são eles?

Ao longo dos anos de estudo sobre empresas, principalmente as empresas familiares, notei a importância de três aspectos que estão intimamente ligados à prosperidade do negócio. Acredito muito nesses aspectos que chamo de três pilares, e que não funcionam apenas para empresas familiares, são eles: o direcionamento estratégico, a governança e a gestão. Eles não aparecem em ordem de importância, mas devem caminhar paralelamente, conversando entre si, e serem colocados em funcionamento de maneira simultânea.

JB - 
Detalhe para nós o que são esses três pilares da prosperidade empresarial

Um deles se chama direcionamento estratégico. Não é planejamento estratégico, é direcionamento. Isso significa que a empresa toma uma direção e em função dela é que que se faz o planejamento. É uma combinação inteligente de fatores que indica a direção e o sentido da organização num determinado período de tempo. No caso da Jotabasso, por exemplo, um direcionamento tomado há alguns anos transformou a empresa de produtora de grãos em produtora de sementes por uma série de questões e fatores. Agora, a Jotabasso discute outros direcionamentos.

O segundo pilar é a governança: o sistema e a forma pela qual as empresas são dirigidas, monitoradas, desafiadas e incentivadas, ou seja, é a forma como uma empresa é administrada. Dentro da governança nós destacamos quatro princípios básicos, eles não foram criados por mim, mas são indicados pelo próprio IBGC. A governança, sem esses princípios básicos, não funciona. Um deles é a transparência: uma empresa pode até ser clara, mas falhar na transparência, e transparência tem a ver com ética. Outro princípio é a equidade, que é a igualdade, o tratamento justo entre todos os envolvidos no negócio. O terceiro é princípio é a prestação de contas: executivos prestam contas ao conselho de administração, que presta contas aos sócios. Fazer isso de forma transparente é uma obrigatoriedade. E, o quarto princípio da governança, é a responsabilidade corporativa: acreditamos que ela transcende aquilo que a lei diz, é até mais que isso, tem a ver com valores - qual a responsabilidade corporativa da empresa em relação ao meio ambiente? E em relação à sociedade? O que a empresa gera de valor às entidades associadas a ela? Esse é o espírito da responsabilidade corporativa.

O terceiro e último pilar da prosperidade empresarial é a gestão. Ela envolve a gestão de pessoas, financeira, da logística, da produção, do plantio, do negócio em si. É uma combinação de todos os recursos e fatores da organização com o objetivo de planejar, executar, reconhecer e prestar contas daquilo que foi combinado. Na prática, ela é a execução. Quando se estuda empresas, é perceptível que um dos maiores pecados cometidos é a ineficiência na execução, e é a gestão a responsável por fazer acontecer.

JB - 
E como deve ser a implantação desses pilares para o sucesso da empresa?

Pela minha experiência, esses três pilares, sozinhos, não funcionam. Por que muitas empresas sucumbem ou não são perenes? É porque se esses pilares não forem acionados simultaneamente, não dá certo. As empresas que têm uma governança muito profunda, mas só governança, acaba engessada. Mas se eu esquecer a governança e deixar só a gestão tomar conta do negócio, sem adotar os princípios da governança, a empresa também fracassará. E você pode ter a melhor governança, o melhor conselho, mas se não tiver o direcionamento estratégico bem definido, correto, também não adianta nada. Tem empresas que falam: “mas não precisa implantar tudo isso”. Precisa, só que pode ser feito gradualmente, tem o momento para que as ferramentas possam ser implantadas e podem ser introduzidas aos poucos. A empresa pode ter um mapa onde vai sendo escrito gradativamente o que está sendo feito, por exemplo.

Uma metáfora que sempre uso para explicar a importância dessa simultaneidade é o fogo: você nunca vai ter fogo se não tiver três elementos juntos. Pode existir a maior quantidade de oxigênio e o melhor combustível, mas se não tiver faísca, não haverá fogo. Você pode ter faísca, mas sem oxigênio e sem combustível, também não adianta. Esses elementos, se não coexistirem, não haverá fogo. E o mesmo vale para os três pilares.